A postagem de hoje não é minha. Minha amiga, Gabriela Lima, pediu um favor e farei. Crédito é inteiramente dela.
"É engraçado como o tempo passa rápido.
Parece que foi ontem que tudo aconteceu. Parece que foi ontem que eu estava na
casa da momó, sendo acordada por ela. Eram 11h da manhã e ela me disse que
haviam ligado do hospital dizendo que se nós quiséssemos ir até lá para ver
minha avó, estávamos autorizadas, pois não sabiam se ela duraria até a hora da
visita, às 20h. Nós nos arrumamos e fomos almoçar na casa da tia Jandyra. Lá eu
esperei todos estarem prontos para irmos ao hospital. Não deu tempo. Antes
mesmo de sairmos de casa, recebemos uma ligação do meu tio ou do meu irmão, não
sei ao certo. Fomos informados de que ela já havia morrido. Minha irmã, que
quase não chora, veio até o quarto me contar, já com lágrimas nos olhos. Quando
eu cheguei na sala, também chorando e meio sem saber o que fazer, vi a imagem
mais perturbadora que eu poderia encontrar. Todos estavam chorando. Eu não
poderia imaginar outra coisa, mas como já disse, eu estava meio desorientada.
Lá eu vi, pela primeira vez, o meu tio chorar. Eu não poderia esperar outra
coisa, afinal, antes dela ser minha avó, ela era a mãe dele. Cheguei ao
hospital e lá estava quase toda a minha família. Minha mãe aos prantos, sendo
consolada por uma amiga do trabalho novo. Meu outro tio estava desamparado,
inconsolável. Ele era o filho mais próximo da minha avó. Ele era o que ligava
pra ela todos os dias, ia para casa dela todos os finais de semana com as
minhas primas e era o que pagava as contas dela e resolvia seus problemas. O
que mais me impressionou foi ver meu avô, pai do meu pai, que mesmo tendo minha
outra avó em casa, doente, encontrou tempo para ir ficar com a gente e tentar
dar o máximo de amparo possível. Enquanto eu abraçava o meu irmão o mais forte
que eu conseguia e um aparava o outro, eu vi a cena que talvez mais tenha
partido meu coração: minha mãe e meus dois tios ali, olhando para o corpo da
minha avó. Eu não tive coragem de entrar na sala que o corpo dela estava,
apesar da porta estar aberta. Tive medo da minha reação. Não queria perder o
controle naquele momento em que minha mãe mais precisava de mim. Fiquei um
tempo conversando com a tia Márcia para tentar me distrair Perguntei sobre
minhas primas. Em especial sobre a Rapha, a mais velha, que no dia seguinte
faria 14 anos. A tia Márcia disse que ela ainda não estava sabendo. Naquele
momento, como se ela tivesse adivinhado que estávamos falando dela, o telefone
tocou. Ela ficou sabendo e teve a missão de contar para a minha prima mais
nova, Renata, na época com 8 anos. Minha tia disse que iria pra casa e então eu
decidi ir. Queria sair daquele hospital o mais rápido possível, depois de
passar um mês praticamente presa lá, em todos os horários de visita. Eu fui pra
casa dela. Queria ver minha prima. Quando chegamos lá, ela estava com algumas
amigas que foram cantar parabéns pra ela e obtiveram a missão de distrai-la. Eu
não me lembro ao certo como foi a minha tarde lá. Sei apenas que depois que as
amigas dela foram embora, nós conversamos um pouco. Ela me perguntou quem
estava no hospital, como eu soube, como o pai dela, a minha mãe e nosso tio estavam
etc. Respondi tudo, tendo que fazer uma pausa em alguns momentos para recuperar
a voz que estava sendo atrapalhada pela vontade de chorar. De noite, minha mãe
e meu pai chegaram para me buscar. Quando cheguei em casa, fui para o
computador, tentando ocupar minha cabeça, tentando esquecer tudo aquilo. Não
funcionou. Eu mal consegui entrar na internet e nas redes sociais e uma
enxurrada de “LUTO” e “sinto muito” ocuparam a tela do meu computador. Sai de
lá e me tranquei no banheiro para tomar banho. Lá era o único lugar que eu me
sentia a vontade de chorar incansavelmente. Depois disso eu fui dormir. Já
estava tarde e eu não aguentava mais chorar. Estava com a cara todo inchada.
No dia seguinte, acordamos cedo. Era o
velório/enterro. Dessa vez todos estavam lá. Meu pai, minha tia que mora em
Brasilia, minha prima mais velha. Seis dos sete netos dela. Minha prima mais
nova, Renata, não estava porque meus tios acharam melhor deixar ela na casa dos
avós maternos. Lembro que, após ver um primo da minha mãe chegar com uma rosa
vermelha em mãos, eu sugeri à minha prima, Raphaela, que fossemos na
floricultura, que ficava na frente do cemitério, comprar uma orquídea, a flor
preferida dela. Meu pai nos deu o dinheiro e nós duas fomos até lá. Compramos a
flor e, quando chegamos a sala em que estava sendo o funeral dela, todos que
sabiam da fascinação dela por essa flor ou abriram um sorriso, ou caíram no
choro novamente. Algumas horas depois, quando deu a hora dela ser enterrada,
algumas mulheres chegaram naquela sala e fizeram uma oração. Ao término da
oração, alguns homens entraram e, quando eu percebi que eles iriam fechar o
caixão, virei o rosto. Não queria ver aquilo. Não queria ter aquela imagem na
cabeça. Vê-la deitada em um caixão é uma coisa, mas vê-la ser fechada em um é
outra completamente diferente para a minha cabeça. Acompanhamos o caixão dela
até a cova, onde já havia sido enterrado o meu bisavô e minha bisavó, pais
dela, meu avô, marido dela, e meu tio, irmão dela, morto cerca de 7 meses
antes. De lá, se não me engano, seguimos para algum restaurante para
almoçarmos, pois já se passava das 15:00. Parece que foi ontem que tudo
aconteceu, mas na verdade já se passou 2 anos desde o
pior dia da minha vida. Eu não sabia o que pensar, sentir ou falar. Na
realidade, ainda não sei. A unica coisa que sei é que essa dor que está aqui,
guardada no meu coração, cresce cada vez mais. Eu sei que isso nunca vai
passar, mas infelizmente eu tenho que conviver com essa dor. Mas por um lado,
sei que eu tive a avó mais invejável e querida do mundo. A avó que todos
gostariam de ter. A avó que apesar de ser carola e meio chata às vezes em
questão religiosa, eu nunca poderia imaginar ter uma pessoa melhor ao meu lado,
me ensinando sobre a vida, me dando conselhos do que fazer ou não fazer, me
dizendo que o único ser perfeito que já existiu foi Deus etc. Bom, eu só
gostaria de ter usado com ela a frase que ela sempre usou com as pessoas
importantes de sua vida. Vó, eu te amo de paixão. Um beijo no seu coração".
Por Gabriela Lima.
A mesma saudade que dói atesta um ontem que valeu a pena.
ResponderExcluirGK